As eleições imperiais dos EUA

Cada vez mais uma oligarquia hereditária, o país tende a assistir em 2016 à disputa entre as dinastias Bush e Clinton.

O congresso saiu do recesso do fim de ano sob nova direção, republicana. De agora em diante, seus debates serão cada vez menos sobre políticas necessárias ao país e ao mundo e mais sobre as eleições de 2016, mesmo se pretenderem parecer outra coisa. O mesmo pode se dizer das propostas legislativas de Barack Obama. Ao apresentar um projeto orçamentário de 3,99 trilhões e anunciar o fim da austeridade, a salvação da classe média e o aumento dos impostos dos ricos e das empresas para financiar projetos sociais e de infraestrutura, sabe perfeitamente serem zero as chances de aprovação na Câmara ou no Senado.

Não são muito melhores, aliás, as probabilidades de se resgatar a classe média. Hoje, o 1% mais rico possui 40% da riqueza e 22% da renda do país. Impressiona não só em relação ao passado dos EUA – em 1960, essa camada detinha apenas 10% da renda – como ante o Império Romano do século II, onde o 1% mais rico tinha 16% da renda. A política lembra cada vez mais a disputa nas últimas décadas da República Romana entre os Populares (“democratas”) do magnata Júlio César e os Optimates (“republicanos”) do ainda mais rico Pompeu Magno, cuja facção radical, na qual militou Marco Júnio Bruto, se intitulou Liberatores, como os libertariansdo Tea Party. Sintoma de como o poder tornou-se uma disputa entre dinastias é o fato de os mais prováveis contendores de 2016 se chamarem Hillary Clinton (esposa de Bill) e Jeb Bush (irmão de George W. e filho de George H.). Não só a desigualdade cresce, como torna-se cada vez mais hereditária. A mobilidade social diminui a olhos vistos.

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O mau humor da esquerda com Dilma

Embrião do grupo frustra-se com guinada ortodoxa na economia e não se dispõe a defendê-la de impeachment. Em apuros, presidenta buscará conselhos de Lula.

Pouco antes de chegar ao cargo, o ministro da Educação, Cid Gomes, lançou a ideia de criar-se uma frente de esquerda no País. A intenção era manter vivo o movimento suprapartidário surgido em torno da reeleição de Dilma Rousseff, a juntar sindicalistas, camponeses, intelectuais, militantes gays, congressistas. Sua missão seria ajudar o governo a lidar com um Congresso conservador e uma oposição beligerante. Nem bem Dilma iniciou o novo mandato e o entusiasmo sumiu naquilo que se poderia chamar de “embrião da frente”. E mais: não há disposição para ir às ruas defender o governo mesmo que a oposição lance a campanha do impeachment, uma ideia já namorada.

O embrião do grupo reúne sindicalistas das centrais CUT e CTB, sem-terra, petroleiros, dirigentes do Movimento Passe Livre e do coletivo Fora do Eixo, parlamentares do PT e do PSOL. Em um encontro no fim de janeiro, em São Paulo, traçou-se um diagnóstico bastante pessimista sobre os rumos do governo.

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Justiça é conivente com torturadores, revela estudo

Levantamento mostra que os tribunais brasileiros absolveram 19% dos agentes públicos acusados de tortura. O índice cai para 10% quando o agente é privado.

A análise de 455 decisões em todos os Tribunais de Justiça do Brasil revelou que funcionários do Estado envolvidos em casos de tortura têm mais chances de serem absolvidos do que atores privados (familiares, cônjuges e seguranças particulares, por exemplo). De acordo com o levantamento, policiais e funcionários do sistema prisional condenados em um primeiro julgamento foram absolvidos, na segunda instância, em 19% dos casos. Entre agentes privados, o índice de absolvição cai praticamente pela metade (10%).

A principal explicação para o perdão dos acusados, segundo o estudo, reside na falta de provas e no peso dado à palavra da vítima. “Hoje, a produção de provas é falha porque o órgão pericial pertence à Polícia”, afirma Vivian Calderoni, advogada da ONG Conectas Direitos Humanos e uma das responsáveis pelo relatório. “É como se um colega produzisse provas contra outro, o que implica em conflitos de interesse”, completa. Além disso, o levantamento revela que em julgamentos contra agentes privados, o valor da palavra da vítima, para o juiz, é maior. Porém, essa lógica se inverte se o julgamento for contra um agente público.

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A terceira revolução industrial morreu. E agora?

A tecnologia que move o mundo atual dá sinais de estagnação. Podemos esperar crises econômicas e sociais. Por Antonio Luiz M. C. Costa.

É um assunto muito importante, mas embaraçoso demais para os veículos especializados. A terceira revolução industrial na qual militam tantos geeks, analistas de mercado, empresários e economistas desde os anos 1990 caminha para um fracasso econômico.

O crescimento anual médio da produtividade total dos fatores nos EUA, calculado pelo economista Robert Gordon, foi de 2,03% entre 1920 e 1970, anos em que a difusão das técnicas fordistas de produção e consumo em massa de fato revolucionaram a economia. Caiu nas décadas seguintes. De 1999 a 2004, recuperou-se para 1,69%, o que pareceu dar alguma substância à ideia de uma nova “revolução industrial”. Mas, de 2004 a 2009, caiu para 0,61% e de 2009 a 2014, para 0,48%.

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Força Aérea lista “tendências homossexuais” em questionário patológico

Em questionário aplicado a médicos aspirantes a oficiais, o Centro de Medicina Aeroespacial coloca “tendências homossexuais” ao lado de doenças como hipertensão e deformidade.

Na mesma semana em que o Exército brasileiro criticou o projeto de lei que criminaliza a homofobia pelos “reflexos indesejados” que a proposta traria, CartaCapital teve acesso a um questionário patológico do Centro de Medicina Aeroespacial, ligado à Força Aérea Brasileira (FAB), que lista “tendências homossexuais” como doença.

O questionário faz parte do processo de seleção de médicos aspirantes a oficiais na FAB e lista o item relativo à orientação sexual em meio a doenças, como epilepsia, hipertensão, doenças venéreas e deformidades, entre outras.

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