As Ciências Sociais e o processo histórico

(LEMOS FILHO, 2000)

(…) A preocupação em conhecer e explicar os fenômenos sociais sempre se fez presente na história da humanidade. Mas a tentativa de se dar uma explicação cientifica ao comportamento social e às condições sociais de existência dos seres humanos é um produto recente do pensamento. Foi somente Idade Moderna, com a emergência da sociedade capitalista, que alguns pensadores se esforçaram em aplicar o método cientifico ao conhecimento dos fenômenos que acontecem na vida social, tendo em vista as fases e desordens sociais provocadas pelas transformações que ocorreram na sociedade. (…)

A preocupação dos pensadores em relação aos fenômenos sociais, no período anterior à formação da sociedade industrial, era mais filosófica do que científica. Embora sua atenção fosse despertada pelas causas econômicas e políticas que abalavam continuamente as estruturas sociais do seu tempo, em lugar de tomarem uma atitude objetiva diante dos problemas que se lhes apresentavam, levados por razão de ordem prática, preocupavam-se mais em descobrir os remédios que trouxessem uma solução para as crises sociais. Os estudos a respeito da vida social tinham sempre por objetivo propor formas idéias de organização de sociedade, mais do que compreender-lhe a organização real (…)

Na Antiguidade, por exemplo, esses estudos eram fragmentários. Limitavam-se a reflexões esparsas a respeito de algumas questões socais nunca reunidos, entretanto num sistema coerente. (…)

O longo período da Idade Média foi pouco propício ao progresso científico e, conseqüentemente, ao estudo cientifico dos fatos sociais. Os pensadores medievais prendiam-se a discussões metafísicas que conduziam à justificação da fé cristã. Tudo girava em torno dos interesses da Igreja que monopolizava todo pensamento da época. A preocupação com julgamentos de valor a prioristicos, o apelo constante à autoridade e ao dogmatismo religioso impediam o desenvolvimento da investigação científica. (…)

Já no final da Idade Média despontou um movimento de reação à escolástica (…) quando se abriram novas perspectivas ao saber humano. A influência teológica que não permitia ver as coisas senão à luz dominante da salvação eterna, deu lugar a uma perspectiva muito mais independente que favorecia a livre discussão de questões do ponto de vista racional. Foi sendo elaborado um novo tipo de conhecimento, caracterizado por uma objetividade e realismo que marcaram a separação nítida do pensamento do passado, modificação tão definida que se poderia dizer que um novo estágio se iniciava na explicação dos fenômenos da natureza e, conseqüentemente, dos problemas sociais e humanos. (…)

As mesmas condições que propiciaram a especificação das “ciências naturais” favoreceram as chamadas “Ciências Sociais” (…) por outro lado, é necessário procurar os fatores específicos da formação das Ciências sociais. Eles se encontraram nas condições materiais e intelectuais do desenvolvimento do mundo moderno.

(…) Antes, as formas estabelecidas da vida social se revestiam de caráter sagrado: era como se o próprio Deus tivesse estabelecido as normas que deveriam reger as ações humanas, o que tornava essas normas, de certo modo, intocáveis. No mundo moderno, uma exigência geral de eficiência, no sentido de encontrar solução par as crises e problemas provocados pelos novos acontecimentos, fez com que muitas formas de organização social, até então sagradas, passassem a ser vistas como produto histórico e sujeitas a transformações (…) tal atitude secularizada, isto é, alheia às coisas sagradas, favoreceu a difusão de um espírito crítico e de objetividade diante dos fenômenos sociais (…)

O emprego sistemático da razão, como conseqüência de sua autonomia diante da teologia, possibilitou a formulação de uma nova atitude intelectual, o racionalismo, não só em relação aos fenômenos da natureza, mas também em relação aos fenômenos humanos e sociais (…)

A terceira série de fatores, também decisiva para a formação das ciências sociais, está na própria dinâmica do sistema de ciências. (…) é evidente que não se pode dizer que essa dinâmica seja a causa do surgimento das ciências sociais, porque, na verdade, as leis cientificas não passaram a ser aplicadas à realidade social simplesmente porque eram aplicadas com sucesso no conhecimento dos fenômenos da natureza. Mas, sem dúvida, principalmente a partir do século XVIII, a necessidade de se desenvolver técnicas racionais para controlar os conflitos criados pelas crises da época, acabaria levando à formação das Ciências Sociais.

Lemos Filho, Arnaldo. As ciências sociais e o processo histórico. In: Macellino (org). Introdução à ciências sociais. Campinas: papiros 2000.

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